Por Bruno Garschagen.
É doutorando e mestre em Ciência Política e Relações Internacionais pelo Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa (IEP-UCP) e Universidade de Oxford (visiting student). É formado em Direito, pesquisador do Centro de Investigação do IEP-UCP, coordenador e professor de Ciência Política da Pós-Graduação em Escola Austríaca (IMB-UniÍtalo), podcaster, colunista, palestrante e autor do best-seller Pare de acreditar no governo (Editora Record).
Eu fiz uma conta que ajuda a responder uma pergunta que as pesquisas sozinhas não conseguem responder, por que a mesma vantagem pode se repetir no segundo turno da eleição presidencial. O que eu fiz? Eu peguei os votos do primeiro turno, distribui os eleitores dos candidatos que ficaram para trás, considerei a abstenção e simulei duzentos mil cenários diferentes e é a combinação desses três fatores que explica porque o resultado mais provável se repete no segundo turno.
No primeiro turno, Flávio Bolsonaro teve quarenta e sete, pouco mais de quarenta e sete por cento dos votos válidos e o Lula pouco mais de quarenta e cinco por cento dos votos válidos. Os demais candidatos somaram cerca de nove vírgula três milhões de votos. É aqui, é justamente aqui que a conta começa.
Para Lula virar e se tornar vencedor da eleição, Lula precisa ficar com cerca de sessenta e dois por cento desses nove vírgula três milhões dos demais candidatos. Isso dá cinco vírgula oito milhões de votos. Flávio precisa dos outros trinta e oito por cento, cerca de três vírgula cinco milhões de votos. Ou seja, entre os eleitores dos candidatos que ficaram para trás, Lula precisa conquistar quase dois para cada um que Flávio conquistar.
Mas esses votos não tem todos os mesmos destinos, como é óbvio, eleitores por exemplo de Caiado e de Zema tendem a migrar mais para Flávio Bolsonaro. Os eleitores de Ciro e Renan Santos tendem a se dividir entre os dois candidatos Lula e Flávio. Eu estimei essas migrações bloco a bloco para que a coisa fizesse sentido. São premissas de uma simulação, não dados medidos por uma pesquisa, que isso fique bem claro.
O que que eu fiz depois? Eu coloquei a incerteza dentro da conta. Variei as taxas de migração, abstenção e os efeitos da campanha em mil simulações. O resultado obviamente não é uma previsão, é uma distribuição de probabilidades e isso é importante, tá?
O que que aconteceu com esse resultado? Flávio vence entre setenta e cinco por cento e noventa por cento das simulações que eu fiz. E o Lula entre dez e vinte e cinco por cento. No cenário mais provável Flávio fica entre cinquenta e um e cinquenta e dois por cento dos votos válidos e Lula em algo entre quarenta e oito e quarenta e nove por cento dos votos válidos, uma diferença de aproximadamente três a cinco milhões de votos.
Por outro lado, quando o Lula vence a margem costuma ser estreita, em cerca de três de quatro casos fica abaixo de cinquenta e um por cento e há uma variável importante que pode alterar essa conta, a abstenção.
No primeiro turno trinta e três vírgula cinco milhões de eleitores não votaram. Historicamente a abstenção muda pouco entre os dois turnos, por exemplo subiu de vinte ponto três para vinte e um ponto três em dois mil e dezoito e caiu de vinte e um por cento para vinte ponto seis por cento em vinte e dois. Se esse padrão se repetir não há uma grande reserva adicional de votos a ser incorporada ao segundo turno e isso importa por quê? Porque Lula precisa conquistar uma parcela muito elevada dos votos dos demais candidatos o que nesse momento é muito difícil para não dizer uma impossibilidade.
No fim ao cabo a eleição será decidida por quem mantiver seu voto, por quem mudar de voto e por quem decidir sair de casa. Neste momento se as condições não mudarem. Se não houver nenhuma revelação muito grave. Se não houver um erro de campanha muito sério. Se não houver algo que mude completamente a percepção do eleitor, Flávio Bolsonaro será eleito no segundo turno e o Lula enfrentará aquela que será provavelmente a derrota mais amarga da sua vida política.

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