O Dia em que Decidi Entrevistar Tiradentes (e o que Flávio Cavalcanti Tem a Ver com Isso)
Como eu já não sou muito novo, hoje me peguei recordando os idos de 1973. Naquela época, o icônico comunicador da TV Tupi, Flávio Cavalcanti, quebrava recordes de audiência com um quadro fascinante: ele simulava entrevistas com grandes personagens da história do Brasil.
Foram precisos exatamente 53 anos para que eu criasse coragem e decidisse encenar algo semelhante ao que fazia o velho Flávio — e aqui abro um parêntese: refiro-me ao Cavalcanti, não ao Bolsonaro!
Inspirado por aquela atmosfera da antiga televisão brasileira, resolvi elaborar a minha própria sabatina histórica, elaborando 5 perguntas diretas a ninguém menos que Tiradentes.
ENTREVISTA: JOAQUIM JOSÉ DA SILVA XAVIER, 2026
Se Tiradentes estivesse sentado aqui no nosso Pod, com a corda ainda marcada no pescoço, ele responderia assim:
1. Valeu a pena seu sangue?
"Valer, valeu. Mas vejo que trocastes a coroa de Portugal pela coroa dos juros. Na minha Vila Rica, era o quinto do ouro que nos roubavam. Agora me dizeis que o homem que planta feijão em Angelim entrega metade do seu suor antes mesmo de comer? Se meu sangue serviu para que não vos calásseis diante disso, então não foi em vão. Mas se servis apenas para pagar e vos calar... então morri duas vezes."
2. Você confiaria de novo em alguém para fazer uma revolução?
"Confiaria. A Inconfidência não falhou por falta de homens bons, mas por excesso de homens medrosos. Vi ontem, nos vossos jornais, um almoço ser mais importante que a verdade. A traição hoje não precisa de carta ao Visconde, basta um print. Mas ainda há, nas praças de Angelim, de Garanhuns, no olhar do vaqueiro e da professora, gente que não se vende. É com esses que se faz a pátria. Os outros? Deixai que a história os esqueça, como esqueceu os que me entregaram."
3. O Brasil ficou pequeno nos sonhos?
"Não! Vós é que aprendestes que liberdade não se come, mas sem pão não há liberdade. Nós sonhávamos com uma bandeira, vós sonhais com o prato cheio e o descanso no domingo. Isso não é pequeno, é grande! O que me entristece é ver que ainda precisais gritar pelo básico. Liberdade ainda que tardia, para vós, hoje, deveria ser: 'Trabalho digno, ainda que tardio'. 'Tempo para viver, ainda que tardio'. Continuais a lutar pela mesma coisa, só mudastes o latim."
4. O que falta para nascer um novo Tiradentes?
"Falta o povo não deixar o Tiradentes sozinho! Todos querem o herói na estátua, poucos querem dividir a forca com ele. Faltam menos políticos de palanque e mais alferes de rua. O Brasil não precisa de um homem que morra por ele. Precisa de milhões que vivam por ele, todo dia, sem roubar, sem calar, pagando o preço de ser honesto. Quando isso acontecer, não precisareis de um Tiradentes. Sereis todos."
5. O que você diria em 30 segundos para o Brasil de 2026?
"Brasileiros! Não vos pergunto em quem votareis. Pergunto: por quem vivereis? Se votardes por ódio, tereis ódio. Se votardes por medo, tereis medo. Se votardes por pão, por tempo, por vossos filhos... talvez, enfim, tenhais Pátria. Lembrai: a forca que me matou foi feita de madeira do Brasil, por mãos brasileiras, a mando de fora. Não deixeis que outra forca se erga. Eia, levantai-vos! Angelim, Garanhuns, Pernambuco, Brasil... ainda é tempo!"

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