sábado, 10 de outubro de 2026

Um original de: Enéas Bispo de Oliveira O Abismo do Paraíso



Enéas, o poeta de Serra Branca que se apaixonou em Portugal

Hoje, através do professor Murilo Barros, me lembrei do poeta Enéas, lá de Serra Branca.

A última vez que o vi foi no Ponto da Real. Eu voltava para Sumé. Paramos, batemos um papo legal. Conversa boa, daquelas que o tempo não apaga.

Veio a lembrança do grande fotógrafo Enéas. O homem que esteve em Portugal e por lá se apaixonou. 

E trouxe na bagagem não só a fotografia, mas a poesia.

Figura rara do nosso Cariri. 

Um artista que viu o mundo, mas nunca esqueceu Serra Branca. 

Daqueles que a gente encontra na estrada e fica com a impressão de que o encontro foi pouco.Fica aqui o registro e a saudade do poeta. 

Amigo Enéas, vou tentar interpretar seu poema, o sentimento é seu, minha visão talvez não lhe alcance.

Eis 

O Enéas não está falando de um amor romântico comum. Ele está falando de um amor limite, aquele que vive exatamente na fronteira entre o céu e a queda.

1. "Olhos feitos de abismos"

O olhar da outra pessoa não é acolhimento, é profundidade perigosa. Abismo não tem fundo. Quando você olha, você cai. Já começa com a ideia de que amar é se jogar.

2. A pergunta central: "É amor o que sangra em nós, ou será a dor que nos costura?"

Essa é a chave do poema inteiro. Ele inverte a lógica. Normalmente a gente pensa que a dor separa. Aqui a dor é a linha que COSTURA os dois. É o que mantém juntos. O amor que ele descreve não existe sem sangrar. Se não dói, não é amor.

3. "Incêndios silenciosos" e "pisa em cacos"

São duas imagens muito paraibanas, muito cariris. O fogo que não faz barulho mas consome por dentro. E o amor como caminhar descalço em vidro quebrado - cada passo de prazer tem um corte. É a metáfora perfeita da paixão que é ao mesmo tempo êxtase e sofrimento.

4. "Dançamos na corda tênue da perdição"

Aqui ele fecha com a sua marca. A corda bamba. Viver esse amor é equilibrar-se entre salvar-se e perder-se de vez. E no final, o casal escolhe a perdição. Não por fraqueza, mas por lucidez." Não fugiremos, nem queremos." É o verso mais corajoso.

Eles sabem que estão presos, sabem que é um cárcere, e amam o cárcere. O abismo vira paraíso justamente porque é abismo. Se fosse seguro, não seria paraíso. É um poema sobre amor adulto.

Não o amor de conto de fadas, mas o amor que aceita que toda entrega profunda tem um preço de dor. E paga o preço sorrindo.

O original

Você me olhava, olhos feitos de abismos,  Uma pergunta silenciosa queimava no ar:  É amor o que sangra em nós,  Ou será a dor que nos costura à beira do precipício?

Não há resposta que não fira,  Não há verso que não rasgue o peito.  Somos feitos de incêndios silenciosos,  De um fogo que tanto aquece quanto consome.

Amamos como quem pisa em cacos,  Cada passo ressoa um lamento cortante.  A dor é irmã gêmea do êxtase,  E juntos, dançamos na corda tênue da perdição.

Talvez sejam os dois, amor e dor,  Misturados como veneno e cura,  Nos levando pela mão a um destino cego,  Um salto sem redes para o abismo do paraíso.

Caminhamos sem olhar para trás,  Como loucos que amam seus próprios cárceres.  Você me olhava e eu sabia—  Não fugiremos, nem queremos.

Esse amor é nossa ruína,  Mas também o céu pintado por nossas mãos.  Se há um fundo no abismo,  Que seja feito de estrelas,  E que ao cair, toquemos o impossível.

E assim seguimos, entre beijos que cortam  E abraços que selam feridas invisíveis.  Rumo ao desconhecido, de olhos fechados,  Para cair ou voar.  Pouco importa—  O paraíso sempre começa na queda.

 

 

 

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