Hoje, através do professor Murilo Barros, me lembrei do poeta Enéas, lá de Serra Branca.
A última vez que o vi foi no Ponto da Real. Eu voltava para Sumé. Paramos, batemos um papo legal. Conversa boa, daquelas que o tempo não apaga.
Veio a lembrança do grande fotógrafo Enéas. O homem que esteve em Portugal e por lá se apaixonou.
E trouxe na bagagem não só a fotografia, mas a poesia.
Figura rara do nosso Cariri.
Um artista que viu o mundo, mas nunca esqueceu Serra Branca.
Daqueles que a gente encontra na estrada e fica com a impressão de que o encontro foi pouco.Fica aqui o registro e a saudade do poeta.
Amigo Enéas, vou tentar interpretar seu poema, o sentimento é seu, minha visão talvez não lhe alcance.
Eis
O Enéas não está falando de um amor romântico comum. Ele está falando de um amor limite, aquele que vive exatamente na fronteira entre o céu e a queda.
1. "Olhos feitos de abismos"
O olhar da outra pessoa não é acolhimento, é profundidade perigosa. Abismo não tem fundo. Quando você olha, você cai. Já começa com a ideia de que amar é se jogar.
2. A pergunta central: "É amor o que sangra em nós, ou será a dor que nos costura?"
Essa é a chave do poema inteiro. Ele inverte a lógica. Normalmente a gente pensa que a dor separa. Aqui a dor é a linha que COSTURA os dois. É o que mantém juntos. O amor que ele descreve não existe sem sangrar. Se não dói, não é amor.
3. "Incêndios silenciosos" e "pisa em cacos"
São duas imagens muito paraibanas, muito cariris. O fogo que não faz barulho mas consome por dentro. E o amor como caminhar descalço em vidro quebrado - cada passo de prazer tem um corte. É a metáfora perfeita da paixão que é ao mesmo tempo êxtase e sofrimento.
4. "Dançamos na corda tênue da perdição"
Aqui ele fecha com a sua marca. A corda bamba. Viver esse amor é equilibrar-se entre salvar-se e perder-se de vez. E no final, o casal escolhe a perdição. Não por fraqueza, mas por lucidez." Não fugiremos, nem queremos." É o verso mais corajoso.
Eles sabem que estão presos, sabem que é um cárcere, e amam o cárcere. O abismo vira paraíso justamente porque é abismo. Se fosse seguro, não seria paraíso. É um poema sobre amor adulto.
Não o amor de conto de fadas, mas o amor que aceita que toda entrega profunda tem um preço de dor. E paga o preço sorrindo.
O original
Você me olhava, olhos feitos de abismos, Uma pergunta silenciosa queimava no ar: É amor o que sangra em nós, Ou será a dor que nos costura à beira do precipício?
Não há resposta que não fira, Não há verso que não rasgue o peito. Somos feitos de incêndios silenciosos, De um fogo que tanto aquece quanto consome.
Amamos como quem pisa em cacos, Cada passo ressoa um lamento cortante. A dor é irmã gêmea do êxtase, E juntos, dançamos na corda tênue da perdição.
Talvez sejam os dois, amor e dor, Misturados como veneno e cura, Nos levando pela mão a um destino cego, Um salto sem redes para o abismo do paraíso.
Caminhamos sem olhar para trás, Como loucos que amam seus próprios cárceres. Você me olhava e eu sabia— Não fugiremos, nem queremos.
Esse amor é nossa ruína, Mas também o céu pintado por nossas mãos. Se há um fundo no abismo, Que seja feito de estrelas, E que ao cair, toquemos o impossível.
E assim seguimos, entre beijos que cortam E abraços que selam feridas invisíveis. Rumo ao desconhecido, de olhos fechados, Para cair ou voar. Pouco importa— O paraíso sempre começa na queda.

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