Um bairro com casas “impressas” por robôs gigantes saiu do protótipo e
virou obra em escala residencial no Texas, nos arredores de Austin, com
a promessa de reduzir desperdícios e simplificar etapas tradicionais da
construção.
O empreendimento, conhecido como Genesis Collection no condomínio
Wolf Ranch, fica em Georgetown, a cerca de 50 quilômetros de Austin, e
reúne 100 casas térreas erguidas com sistema industrial de impressão 3D, em parceria entre a construtora Lennar e a empresa de tecnologia ICON.
Embora o título que circula nas redes fale em paredes prontas em 24 a
48 horas, o acompanhamento do canteiro mostra que, nesse bairro, a etapa de impressão do conjunto de paredes pode levar semanas por casa, antes da finalização completa.
O que está sendo construído nos arredores de AustinNo Wolf Ranch, a impressão 3D não entrega uma casa inteira do começo
ao fim, mas produz o sistema de paredes em concreto extrudado, enquanto
fundação e cobertura seguem métodos convencionais adotados no mercado
imobiliário norte-americano.
As casas são térreas, com três ou quatro quartos, e foram colocadas à venda em faixas que ficaram entre aproximadamente US$ 450 mil e perto de US$ 600 mil, segundo informações divulgadas durante a comercialização do projeto.
Parte do apelo está na repetibilidade do processo
Bairro no Texas usa impressoras 3D gigantes para erguer casas com
concreto especial, reduzir resíduos e acelerar a construção civil.O bairro foi planejado com diferentes plantas e variações de fachada,
mantendo um método produtivo semelhante que ajuda a reduzir retrabalho e
padronizar a execução das paredes.
Em vez de tijolos e argamassa aplicados manualmente, o equipamento
deposita, camada a camada, um composto cimentício por meio de um bico
extrusor, seguindo um percurso programado digitalmente.
Esse processo cria uma textura estriada característica do método e
transforma o arquivo arquitetônico em paredes físicas com precisão
automatizada.
A ICON descreve o sistema Vulcan como tecnologia de construção
aditiva capaz de imprimir estruturas amplas sem necessidade de
reposicionamento constante do equipamento.
Nesse fluxo, o software BuildOS atua como ponte entre projeto e obra,
preparando os arquivos para impressão e comandando o hardware no
canteiro com monitoramento integrado.
A promessa de operação com equipes reduzidas aparece associada às
novas gerações de máquinas, que funcionam com número menor de
trabalhadores em comparação aos canteiros tradicionais.
Lavacrete e resistência a furacões e eventos extremos
O material utilizado na extrusão, chamado Lavacrete, é descrito pela
empresa como um concreto de alta resistência desenvolvido para fluir
pela impressora e solidificar rapidamente sem perder estabilidade
estrutural.
Segundo a ICON, o sistema de paredes teria superado exigências de
projeto previstas em códigos de construção, ampliando a margem de
segurança estrutural.
No caso de furacões, a empresa afirma que o sistema passa por ensaios
padronizados e pode resistir a ventos de até 250 milhas por hora em
condições de teste.
Em relação a terremotos, a companhia informa que adapta o sistema
para atender requisitos regionais, inclusive demandas sísmicas, conforme
a área de atuação.
Velocidade, resíduos e limites da automação
A ideia de imprimir paredes em 24 horas ajudou a popularizar a tecnologia nos primeiros anos de divulgação do método.
No bairro do Texas, porém, o ritmo observado indica prazo mais longo
para concluir a impressão por unidade, ainda que o processo possa
ocorrer em paralelo a outras etapas da obra.
A redução de resíduos é um dos argumentos centrais da construção
aditiva, já que a deposição segue o traçado do projeto com menos sobras
comuns na alvenaria convencional.
Mesmo com automação avançada, telhados, portas, janelas, instalações
elétricas e acabamentos continuam sendo executados por métodos
tradicionais.
Isso significa que a impressão 3D concentra-se principalmente nas paredes, e não elimina completamente as demais fases do cronograma construtivo.
Impressão 3D e crise de moradia nos Estados Unidos
A aposta em obras automatizadas cresceu junto com o debate sobre
falta de moradias no país, onde diferentes estudos apontam déficit de
alguns milhões de unidades habitacionais.
Estimativas recentes colocam o déficit em torno de 3,8 milhões a
quase 5 milhões de residências, dependendo da metodologia considerada.
Ainda assim, o caso do Wolf Ranch indica que, mesmo com paredes impressas, o preço final permanece alinhado ao padrão de mercado local, influenciado por fatores como terreno, regulamentação e financiamento.
No plano empresarial, a construtora envolvida já sinalizou interesse
em expandir empreendimentos semelhantes, sugerindo continuidade do
modelo com ajustes operacionais.
Com essa experiência, a impressão 3D entra em fase mais operacional e
menos experimental, em que desempenho real, certificações e custos
passam a ser avaliados com maior rigor.
Se os robôs já conseguem mudar o jeito de erguer paredes em um bairro
inteiro, o que ainda falta para essa lógica virar regra na habitação e
não apenas um experimento em regiões valorizadas?