Pipoca, mandioca, capim, cutucar, peteca, mingau, catapora.
Nenhuma dessas palavras é portuguesa, todas vêm do tupi. O Brasil fala tupi. Só não sabe.
E repare onde elas moram. O que se come: mandioca, pipoca, paçoca, mingau, caju, maracujá, abacaxi, jabuticaba. O que morde, o que voa: jacaré, capivara, piranha, tatu, arara, urubu, cupim, sabiá.
O que dói e o que a criança faz: pereba, catapora, cutucar, peteca, curumim. Até o mato: capim, ipê, buriti.
Agora repara onde elas NÃO moram. Lei, juiz, igreja, imposto, cartório, governo, nenhuma é tupi. Tudo isso chegou de navio em português e em português ficou.Isso não é coincidência, tá?
É uma divisão de trabalho que durou séculos no Brasil colônia.
Das centenas de línguas indígenas que se falaram nesse território, uma só entrou de verdade no português do Brasil: o tupi antigo. A língua que se falava no litoral.
E entrou por um caminho muito específico, tá? Pela mãe.Nos primeiros anos quase não tinha mulher branca. Então era pai português e mãe tupi, e a gente aprende a falar com a mãe.
A comida, o bicho, a doença, o corpo e o brinquedo eram nomeados em casa, na língua de quem criava.
O que vinha de fora da casa, a lei, o padre, o rei, chegava na língua do pai.Quer ver um exemplo? Xará.
A palavra que o brasileiro usa quando encontra alguém com o mesmo nome. Em tupi: o que tem o meu nome. É a palavra mais brasileira que existe e ela é portuguesa.[tupi]
Quer ver outra? Caipira: caaipira, o que vem do mato. Pindaíba, catapora, xará, caipira. O brasileiro descreve a própria vida cotidiana na língua que acha que perdeu e ainda tá entre nós. Por isso não existe um número.
Um filólogo da Academia Brasileira de Letras, o Evanildo Bechara, diz que é impossível contar quantas palavras do português vieram do tupi porque elas não tão numa lista, tão tão espalhadas pela nossa casa todos os dias.
Português é a língua do que o Estado fez. O tupi é a língua do que a casa fez.
Você fala português com o juiz. Mas com a criança você fala em tupi. A língua da casa brasileira nunca foi só portuguesa.
Ela só não sabia o nome disso. E essas histórias todas estão de certa forma no dicionário de tupi antigo do Eduardo Navarro da USP. É o começo de uma conversa sobre o Brasil que existia antes do português chegar e que não foi embora.