terça-feira, 10 de março de 2026

Os ventos do Nordeste estão nas mãos dos estrangeiros: quase 70% dos parques eólicos da região pertencem a empresas internacionais, com França, China e Itália liderando os investimentos em energia do vento no Brasil


 



Empresas estrangeiras controlam 68,9% dos parques eólicos do Nordeste, região responsável por mais de 90% da geração de energia do vento no Brasil, aponta levantamento acadêmico com 156 empreendimentos franceses, 117 chineses e 94 italianos

O controle estrangeiro sobre parques eólicos no Nordeste brasileiro alcança 68,9% dos empreendimentos, enquanto 30% possuem capital misto. A região concentra mais de 90% da geração nacional de energia eólica no Nordeste, segundo levantamento acadêmico baseado em dados sobre outorgas e empreendimentos.

A maior parte dos parques eólicos instalados no Nordeste pertence a empresas estrangeiras. De acordo com o estudo, 68,9% dos empreendimentos são controlados por capital internacional, enquanto cerca de 30% operam com investimentos mistos, combinando recursos nacionais e estrangeiros.

Os dados foram reunidos pela pesquisadora Monalisa Lustosa, doutoranda em geografia na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, a Unesp. 

O levantamento integra a tese da pesquisadora e será acompanhado de um mapa interativo que apresenta a localização das usinas eólicas e a identificação do que ela denomina “donos do vento”.

A região Nordeste também concentra o maior número de autorizações concedidas pela Agência Nacional de Energia Elétrica para a instalação de complexos eólicos.

Essa concentração contribui para que a energia eólica no Nordeste responda por mais de 90% da eletricidade gerada a partir do vento no Brasil.

Energia eólica no Nordeste e a presença dominante de capital estrangeiro

Entre os países que mais possuem parques eólicos na região, a França lidera com 156 empreendimentos. Em seguida aparecem a China, com 117 parques, e a Itália, com 94 instalações registradas no Nordeste brasileiro.

Segundo Lustosa, esses números ajudam a revelar como o capital internacional tem presença predominante na exploração do potencial eólico da região.

O levantamento também busca evidenciar a relação entre os investimentos estrangeiros e o controle das outorgas para geração de energia.

A pesquisadora afirma que a agenda global da transição energética precisa ser analisada de forma crítica.

Em entrevista ao programa Conversa Bem Viver, ela afirmou que o conceito de desenvolvimento sustentável não deve ser tratado sem questionamentos.

Para Lustosa, a agenda da transição energética é formulada fora da América Latina, principalmente por corporações transnacionais e por países que dominam essa agenda global.

Debate sobre desenvolvimento sustentável e transição energética

A geógrafa descreve o desenvolvimento sustentável como um conceito criado em países ocidentais e posteriormente aplicado em territórios latino-americanos. Segundo ela, esse processo ocorreu de forma que considera colonizadora.

Na avaliação da pesquisadora, o debate envolve uma dicotomia. A geração de energia renovável reduz emissões de carbono na cadeia produtiva, mas pode produzir impactos sociais nos territórios onde os empreendimentos são instalados.

Ela afirma que a expansão da energia eólica no Nordeste pode ser interpretada de maneiras distintas.

Enquanto a presença das torres eólicas sugere avanço tecnológico e desenvolvimento energético, comunidades locais relatam impactos sobre seus territórios.

Lustosa menciona que alguns grupos enfrentam processos de deslocamento e perda de vínculos territoriais diante da instalação dos empreendimentos.

Relatos de comunidades tradicionais e impactos territoriais

A pesquisa reúne relatos de pescadores, marisqueiras, quilombolas, trabalhadores rurais assentados da reforma agrária e comunidades tradicionais de fundo e fecho de pasto em diferentes localidades do Nordeste.

Segundo esses depoimentos, muitas comunidades afirmam possuir pouca informação sobre os projetos eólicos instalados em suas regiões. Os moradores relatam que protocolos de consulta e escuta ativa não são seguidos em diversos casos.

Alguns desses grupos descrevem a situação como lidar com um “inimigo oculto”, por conta da falta de clareza sobre os processos de instalação dos parques eólicos.

Dentro da pesquisa, Lustosa utiliza a expressão territorialização dos ventos para descrever a concentração de outorgas e o domínio do capital estrangeiro nos projetos de energia eólica no Nordeste.

Organização social e propostas de transição energética justa

Além de analisar os impactos dos empreendimentos, o estudo também observa formas de organização social nas regiões afetadas. Um dos exemplos mencionados é o Movimento de Atingidos pelas Renováveis, conhecido pela sigla MAR.

O movimento atua na defesa de territórios afetados por projetos eólicos e solares. Entre as reivindicações apresentadas está a defesa de uma transição energética considerada justa e popular.

A pesquisadora aponta que a organização coletiva dessas comunidades tem relação com a defesa do território como elemento de identidade.

Ela menciona que essa visão se aproxima da forma como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra compreende o território.

Lustosa também cita o conceito de cosmovisão proposto pelo pensador quilombola Nego Bispo, que valoriza a ancestralidade e a circularidade do tempo.

Segundo a pesquisadora, experiências de uso de tecnologias renováveis também têm sido desenvolvidas por movimentos sociais.

Em cooperativas de assentados, sistemas de energia solar foram incorporados a agroindústrias, ampliando a capacidade produtiva e reduzindo custos.

Ela afirma que essas experiências ocorrem em diferentes locais, incluindo áreas da Paraíba, da região de Pombal, do Piauí e de outras localidades.

Para a pesquisadora, esses exemplos representam possibilidades de organização territorial que ela descreve como “territórios de esperança”, onde comunidades buscam compreender e utilizar tecnologias energéticas ao mesmo tempo em que defendem seus territórios.

Com informações de Brasil de Fato.

 


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