quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Antigamente era menos visível


 

O que mudou não foi necessariamente o caráter, foram 3 coisas: a visibilidade, o cálculo de risco e a impunidade.

1. Antes era escondido porque precisava ser. Hoje é filmado

Antigamente você tinha 3 TVs, 2 jornais por estado e o Diário Oficial. 

Pra descobrir um esquema, precisava de meses de investigação de um jornalista com acesso a Brasília.

Hoje todo contrato está no Portal da Transparência, todo assessor grava áudio, toda licitação é printada e todo político tem um adversário com celular na mão. 

O roubo parece mais escancarado porque a câmera está em todo lugar. O que antes era boato de bastidor, hoje é vídeo em 4K no WhatsApp no mesmo dia.

2. O cálculo de risco mudou

O modelo antigo era: rouba pouco, esconde bem, fica 30 anos no poder. Era o coronelismo clássico - tirava da merenda, da obra, mas mantinha a fachada de homem honesto.

O modelo novo é diferente. Com reeleição curta, instabilidade jurídica e a chance real de não voltar mais, muita gente passou a operar na lógica de "roubar rápido e muito enquanto dá". É o que cientistas políticos chamam de "saque a curto prazo".

Se a punição é incerta e a memória do eleitor é curta, o custo de ser flagrado abertamente fica menor do que o benefício de arrecadar rápido pra campanha, pro partido e pro grupo.

3. A blindagem social e jurídica

Antigamente o político pego roubando perdia o capital moral e acabava a carreira. Hoje existe uma militância que defende "o meu" mesmo quando é pego.

Quando o eleitor passa a tolerar o roubo do seu lado porque "o outro lado rouba mais", o político percebe que não precisa mais esconder. 

Ele só precisa dizer que é perseguição política. A polarização virou um ótimo esconderijo. E no lado jurídico: inquéritos que duram 10 anos, foro privilegiado, recursos infinitos e anistias.

Quando a conta demora muito pra chegar, a vergonha na cara some. Resumindo: não é que o político ficou mais corajoso. 

É que o sistema mostrou pra ele que dá pra roubar abertamente, ser flagrado, e mesmo assim continuar elegível, com mandato, com voto e com defesa pronta nas redes. Antes o medo era ser descoberto. Hoje o medo é só de ser descoberto pelo lado errado e não ter narrativa pra se defender.

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