O pano estava pronto para subir. O Diretor - experiente, de terno, dono do teatro mais famoso do país - montou o cenário com cuidado: quatro cadeiras marcadas, um tapete vermelho, luz forte e, ao centro, um púlpito vazio com um nome escrito: LULA.
Era para ser o grande ato final. O último ensaio antes do público decidir quem fica com o teatro.
Eis que entra em cena o Primeiro Juiz. Não estava no roteiro. Vindo da coxia, ele aponta para o púlpito e diz: "Tirem isso daqui. Esse vazio ofende."
O Diretor argumenta: "Mas foi combinado com todo o elenco. Todos assinaram que o vazio ficaria ali, para lembrar a ausência."
O Juiz não ouve. O púlpito tem que sair.
Antes que o Diretor se recomponha, entra o Segundo Juiz, pela outra coxia, e empurra um novo ator para o palco: "Ele também tem que entrar, mesmo sem ter sido convidado."
O palco, antes organizado, vira confusão.
É aí que o Ator Principal, que já estava maquiado, olha para o púlpito que foi retirado e grita: "Se não posso falar para a cadeira vazia, eu não vou mais contracenar! Minha arte é livre, minha eleição tem que ser limpa!"
E sai batendo a porta do camarim.
O Diretor, no meio do palco, com cadeiras vazias, luz acesa e sem atores, entende que não há mais peça. Não há o que mostrar.
Ele então vai até a beira do palco, olha para a plateia lotada e diz:
"Senhores espectadores, desculpem. Devolvemos o ingresso. Hoje não haverá espetáculo."
E a plateia?
A plateia - que é o povo - continua sentada no escuro. Veio ver proposta e viu despacho. Veio ouvir futuro e ouviu liminar. Saiu do teatro sem saber o final da história, mas com uma certeza:
Quando os juízes viram diretores e os atores só querem plateia para ofender quem não veio, a peça que morre é a Democracia.
Fim do primeiro ato.

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